O Fuca
Martha Medeiros
Nunca consegui chamar de Fusca. O que eu tinha na garagem era um Fuca, apenas um Fuquinha, sem a letra S metida no meio. Mas hoje eu vou chamar como se deve, em sinal de respeito.
O Fusca é que nem certos esportistas que vivem anunciando sua despedida das quadras e dos campos, mas logo voltam a ativa. Eu já li sobre a despedida do Fusca não foi nem uma nem duas vezes, mas parece que agora é definitivo.
O Fusca já era, não será mais produzido em país nenhum do mundo. O último modelo saiu da linha de montagem semana passada, no México, e foi direto para o Museu da Volkswagen, na Alemanha. Adiós, muchacho, buena viaje.
Quem é que não teve um fusca, ou não tem uma história engraçada que aconteceu dentro de um – provavelmente no banco de trás? Ele era mais do que um veículo, era um membro da família. E, como tal, merecia toda a nossa consideração. Viajar de ônibus e deixa-lo na garagem não era uma medida de economia, e sim caso de polícia: abandono de menor. Sim, porque o Fusca era pequeninho. Os carros compactos de hoje não fazem ideia do que é ser compacto.
O Fusca levou muita gente pra Garopaba quando Garopaba era apenas uma vila de pescadores, sem luz elétrica. O Fusca levou muita gente para assistir filmes na sala Vogue, no ABC, no Astor, no Bristol. Levou estudantes pra faculdade, pro centro da cidade, pra zona sul ver o pôr-do-sol no Guaíba. Lá íamos nós, voando a 60 Km por hora, com aquela folga na direção, o motor fazendo barulho, o banco duro feito uma pedra e com a manivela sempre sobrando na nossa mão na hora de abrir o vidro. Bom, talvez o seu fosse mais novo do que o meu.
Se nossos fuscas falassem, não faltaria lenda pra contar: inícios de namoro, pedidos de casamento, luas-de-mel antecipadas, planos de fuga, segredos, choros, risadas, caronas, beijos, coisas legais e algumas ilegais.
Tudo acontecia enquanto se cruzava as ruas da cidade, e principalmente quando se estava estacionado. E todos sintonizados no programa do Cascalho, na rádio Continental. Quem diria, o Fuca, peça de museu. Eu falei Fuca?
Melhor assim, sem formalidade, como nos bons velhos tempos.
Domingo, 10 de agosto de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.